Quando foi que o amor se tornou um produto?

Por: Ane Caroline Janiro

Parceiro: Psicologia Acessível – http://psicologiaacessivel.net/

Quanto mais a sociedade de consumo se moderniza, mais aprendemos a nos tornar consumidores atentos. Estamos preparados para perceber qualquer tipo de incoerência em relação ao produto ou serviço que compramos, contratamos, utilizamos. Somos consumidores exigentes. E estamos certos, afinal, temos nossos direitos.

O que me parece, porém, é que estamos tão preparados para sermos críticos e exigentes, que transferimos este comportamento para tudo na vida. Passamos a não admitir falhas em qualquer que seja a situação. Nossos filhos precisam ser perfeitos e comportados (perdendo até mesmo a essência do “ser criança” para atender à nossa busca pela perfeição), os defeitos dos nossos amigos e familiares nos saltam muito mais aos olhos e à paciência, a convivência com nossos colegas de trabalho então, nem se fala! São seres humanos que sequer tivemos a possibilidade de escolher se gostaríamos de conviver ou não, como é que podemos aceitar nossa incompatibilidade?

E o que dizer dos relacionamentos amorosos? Parece cada vez mais difícil acreditarmos que uma relação duradoura (e feliz) é possível. Estamos sempre em busca da “receita para o relacionamento feliz”, ou “59 atitudes para melhorar seu casamento”, “19 sinais que dizem se sua relação tem futuro”, “faça o teste e descubra se você está no relacionamento ideal”. O que acredito ser o motivo disso? Vemos o amor cada vez mais como um produto, um bem que adquirimos. Construímos em nossa cabeça o ideal de namoro ou de casamento e exigimos que o outro atenda às nossas expectativas, assim como exigimos que uma empresa não nos decepcione ao nos fornecer um produto. Se o produto vier com falhas, devolvemos, exigimos a troca, o conserto na assistência técnica ou mesmo, nosso dinheiro de volta. Entretanto, o relacionamento amoroso passa por fases que são inevitavelmente incontroláveis. Mais do que ser comparado a uma mercadoria, o amor deve ser comparado à natureza, que não se mantém exatamente intacta com o passar do tempo, que sofre transformações de acordo com muitos fatores que a influenciam, mas que ainda assim, pode manter a sua beleza. Quando plantamos uma árvore, não dá para nos certificarmos que suas folhas nunca cairão, que todos os seus frutos serão doces e bons, que ela passará imutável por todas as estações e mudanças climáticas. Não dá pra exigir um certificado de garantia quando decidimos iniciar um relacionamento. O amor não se molda aos nossos padrões de consumo onde não se admite defeitos de fabricação, imperfeições, desgastes. Isso porque cada indivíduo traz consigo vivências próprias, experiências pessoais, familiares, crenças, mitos, valores, hábitos e tudo isso irá refletir na forma como se relaciona com o outro. É claro que todos podem progredir e adaptar determinadas características, já que aprendizados anteriores não precisam servir como desculpa para que não se evolua.

Como lidar com isso então? Tolerância. Algo que dificilmente somos estimulados a ter no papel de consumidores, mas que é imprescindível no amor. Isso não quer dizer aceitar qualquer coisa para manter uma relação, longe disso. Mas sim, ter paciência para aceitar essas características individuais do outro, para conversar, comunicar o que precisa ser mudado, para aguardar que o outro se adapte e tente melhorar, para melhorarmos a nós mesmos, fazer esforços e ceder pelo bem da relação. O imediatismo do consumo pede que sejamos práticos. A delicadeza do amor pede que sejamos tolerantes. Construir uma relação feliz e duradoura exige tempo, dedicação, paciência.

Será que é por isso que falamos tanto em relações descartáveis? Creio mesmo que sim. O fato é que o amor não merece ser tratado como um produto. E aqui, quando falo de amor, não quero dizer somente o amor romântico, mas o amor fraterno também, o amor entre amigos, o amor com as situações de nossa vida. É impossível que uma pessoa consiga suprir todas as necessidades de outra. Se for isso o que esperamos do amor, então estamos mesmo consumindo a “mercadoria” errada.

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