Remédio para dormir

Por: Ane Caroline Janiro – Psicóloga CRP 06/119556

Parceiro: Psicologia Acessível – http://psicologiaacessivel.net/

Certo dia, em uma roda de conversa entre mulheres, pude ouvir um pouco de suas lutas em relação à insônia. Realmente este é um problema que vejo com muita frequência, cada vez mais. E considerando os muitos fatores envolvidos, como estresse, volume de afazeres, dificuldade nos relacionamentos, alimentação, entre tantos outros, é possível entender a razão de a qualidade do sono de tantas pessoas estar assim afetada. O fato é que hoje tudo parece ser tão facilmente resolvido com um “remedinho para dormir”, que parece estranho mesmo imaginar que exista outra forma de resolver as coisas. Bem, na verdade nem tão fácil assim. Nesta mesma roda de conversa, ouvi o que normalmente se ouve em relação a outras queixas, como dor de cabeça, por exemplo: quando o comprimido “x” já não faz mais efeito, passa-se para o “y” (um pouco mais forte), ou para o “z” (mais forte ainda) e assim por diante. E ainda: “tenho um ótimo para te indicar!”

Fiquei me perguntando: será que não há outras formas de prevenirmos esse problema em vez de ficarmos nos entupindo de comprimidos? Eu sei que há, mas por que não fazemos e preferimos os remédios, as formas de nos anestesiarmos?
Será que ainda é possível nos darmos o direito de sentir tristeza sem sermos considerados deprimidos? De querermos nos isolar ou simplesmente respeitar a nossa natureza mais introvertida sem sermos classificados com base em alguma fobia social? E nossos filhos, será que poderemos ainda voltar a vê-los apenas como crianças cheias de energia, que fazem bagunças condizentes com esta fase da vida (e precisam ser orientados e disciplinados) e estão apenas sendo crianças, sem que caiamos na tentação de rotulá-los como hiperativos e problemáticos?

Acho que dá mais trabalho elaborar uma tristeza, uma perda, um sofrimento. Dá mais trabalho assumir aquilo que realmente somos e aprender a lidar com as diferenças. Dá mais trabalho investir tempo e educação de qualidade para que as crianças sejam orientadas da melhor forma possível. Dá mais trabalho e leva mais tempo. Tempo esse que é tão precioso hoje. Falta tempo e, com isso, falta paciência. É mais rápido resolver tudo com um diagnóstico equivocado e um remédio para se acalmar, outro para se concentrar, outro para se comportar.

O que questiono aqui não é o fato de as pessoas utilizarem medicamentos para resolver seus problemas de saúde, é óbvio que são necessários sim em muitos dos casos, mediante orientação médica e até mesmo nos exemplos que já citei acima, para ajudar a enfrentar um problema. O que questiono é a patologização que estamos nos acostumando a fazer da vida. Também não questiono a real ocorrência de distúrbios, mas será que tudo deve ser classificado como tal? Ninguém tem mais o direito de sair um pouco da linha? Não há mais tempo para aprendermos a lidar com nossos conflitos internos? Não há mais tempo para se isolar ou refletir? Para sentir dor, tristeza ou frustração e aprender algo com estes sentimentos? Aliás, creio que não há mais espaço para a solidão. “Se você está sozinho, não pode estar feliz”, é o que vejo à venda por aí e, com isso, não aprendemos a conviver com o nosso próprio “eu”, não toleramos nem a nós mesmo, nem os outros com suas excentricidades. É realmente uma ideia comercializada. A felicidade imediata e sintética é vendida nas prateleiras das farmácias e se você não a compra, está fora de moda.

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